sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A FAMÍLIA (OS PAIS) COMO PRIMEIRA (OS) CATEQUISTA(S


A FAMÍLIA (OS PAIS) COMO PRIMEIRA (OS) CATEQUISTA(S)

 

0.      Introdução

Estamos reunidos para partilhar sobre aquilo que somos e devemos fazer para que as família sejam um lugar de paz, de crescimento pessoal, um ambiente onde os pais preocupam-se de levar os filhos a Deus com uma educação cristão que favorece este encontro com Deus e o próximo. Esta sessão oferecerá ajuda aos membros da comissão da  família que são pais e mães a realizar sua missão de catequista e educadora dos filhos.

1.      Definição

Catequistas são essas pessoas idealistas e altruístas dentro de nossas comunidades, que se dedicam à formação humana e cristã de nossas crianças, adolescentes, jovens e adultos. Os catequistas, assim como os primeiros mestres, deixam nas pessoas marcas profundas que, consciente ou inconscientemente, sempre afloram ao longo dos caminhos da vida

2.      A família e o seu papel de catequista

A Igreja ensina que os primeiros catequistas são os pais. É com eles que toda criança deve aprender a conhecer a Deus, aprender a rezar e dar os primeiros passos na fé; conhecer os Mandamentos e os Sacramentos.

Os pais, então, são os primeiros catequistas de seus filhos. Devido ao baptismo e à graça do matrimónio, eles estão preparados para cumprir a missão de transmitir a fé a seus filhos. O testemunho do amor fiel da mãe e do pai estabelece sua igreja doméstica, que é uma escola de virtude para a família. Apresenta aos filhos a riqueza dos ensinamentos católicos, o encontro com a Palavra de Deus e com os sacramentos, e a generosidade do serviço desinteressado. “a catequese familiar antecede, acompanha e enriquece outras formas de instrução na fé” (Cat 2226).

Os pais, que transmitiram a vida aos filhos, têm uma gravíssima obrigação de educar a prole e, por isso, devem ser reconhecidos como seus primeiros e principais educadores. esta função educativa é de tanto peso que, onde não existir , dificilmente  poderá ser suprida. Com efeito, é dever dos pais criar um ambiente de tal modo animado pelo amor e pela piedade para  com Deus e para com os homens  que favoreça a completa escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade. Mas, é sobretudo , na família cristã, ornada da graça e do dever do sacramento do Matrimónio, que devem ser ensinado os filhos desde os primeiros anos, segundo a fé recebida no Baptismo a conhecer  e a adorar Deus e a amar o próximo; é aí que eles encontram a primeira experiencia quer da sã sociedade humana quer da Igreja; é pela família, enfim, que eles são pouco a pouco introduzidos no consórcio civil dos homens e no Povo de Deus (cf. Declaração “A Educação Cristã”, nº.3).

O dever de educar, que pertence primariamente à família, precisa da ajuda de toda a sociedade. Portanto, além dos direitos dos pais e de outros a quem os pais confiam uma parte de trabalho de educação , há certos deveres e direitos que competem à sociedade civil, enquanto pertence a esta ordenar o que se requer para o bem comum temporal. Faz parte dos seus deveres promover de vários modos a educação da juventude: defender os deveres e direitos dos pais e de outros que colaboram na educação e auxilia-los.

Por uma  razão particular pertence à Igreja o dever de educar, não só porque deve também ser reconhecida como sociedade humana capaz de ministrar a educação, mas sobretudo porque tem o dever de anunciar a todos os homens o caminho da salvação, de comunicar aos crentes a vida de Cristo e ajudá-los, com a sua contínua solicitude, a conseguir a plenitude desta vida. Portanto, a Igreja é obrigada a dar, como mãe, a estes seus filhos aquela educação, mercê da qual toda a sua vida seja incutida do espírito de Cristo; ao mesmo tempo, colabora com todos os povos na promoção da perfeição integral da pessoa humana, no bem da sociedade terrestre e na edificação dum mundo configurado mais humanamente.

3.      A catequese na responsabilidade da família

A catequese é certamente a mais valiosa e importante pastoral na vida da Igreja. Ousamos dizer que pela Catequese se conhece a vitalidade de uma comunidade.

Todavia, a Catequese na comunidade não dispensa, mas pressupõe a família onde os pais devem ser os primeiros catequistas.

João Paulo II, em sua primeira viagem apostólica ao Brasil em 1980, dirigindo-se às famílias em Porto Alegre, assim se expressou: “Em virtude do próprio Baptismo e do Matrimônio, o pai e a mãe são os primeiros catequistas de seus filhos”.

Essas palavras do saudoso Papa são como um eco dos ensinamentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, sobretudo em dois de seus documentos.
“Para os filhos, o pai e a mãe são os primeiros anunciadores e educadores na fé. E os formam para a vida cristã e apostólica, pela palavra e pelo exemplo”. (cf. Decreto “Campos de Apostolado”, nº. 11).

Estamos plenamente convictos de que a chave ou o “segredo” para a educação humana e cristã dos filhos reside no exemplo e testemunho de vida do pai e da mãe. E nunca será demasiado frisar que os filhos são educados não tanto com as palavras, mas sim com os exemplos de vida de seus pais.

É oportuno lembrar um rico ensinamento da moderna psicologia religiosa: a idade de ouro para a educação humana e cristã de uma pessoa é a sua primeira infância (do 0 aos 06 anos). Nessa faixa etária lança-se a base do equilíbrio afetivo, forma-se embrionariamente a personalidade humana e delineia-se a vida toda de uma pessoa. Como é importante, por exemplo, a criança sentir nesses primeiros anos de vida o afeto do pai e da mãe.

É impressionante constatar, no Evangelho, a pedagogia de Cristo defendendo e promovendo a dignidade da criança.

Ainda que tenhamos insistido na educação durante a primeira infância, a missão educadora dos pais deve perpassar todas as fases da vida de seus filhos.

Assim, a vida do pai e da mãe, pela sua exemplaridade, torna-se uma rica lição de formação permanente. Numa perspectiva cristã, não tememos em afirmar que os pais são não apenas os primeiros catequistas, mas sim os mais importantes, os indispensáveis catequistas para seus filhos.

Se Pais e catequistas das comunidades juntos lançarem as sementes da formação humana e cristã no coração dos filhos, estejam certos de que terão a surpresa e a alegria de colheitas abundantes de bons frutos.

A Igreja ensina que os pais devem ser os primeiros catequistas dos filhos; a Igreja completará essa formação.

Sem uma família cristã de verdade, onde pai e mãe dão aos filhos o bom exemplo da fé, os levem à Missa e a Igreja, a família não se mantém de pé diante de tantas ameaças que hoje a atingem: casamentos de pessoas do mesmo sexo, divórcios, traições, infidelidades, televisão imoral, costumes liberais etc.

É fundamental que todas as famílias, todos os cristãos católicos se mobilizem em torno da educação na família. A  família nunca esteve tão ameaçada como hoje. João Paulo dizia que o futuro da Igreja passa pela família. O Congresso Teológico Pastoral, que se realizou no Rio de Janeiro, em 1997, onde esteve o Papa João Paulo II, publicou a “Carta do Rio de Janeiro”. Entre outras coisas foi dito que:

1 – “A família está sob a ponto de ataque em muitas nações. Uma ideologia anti-família tem sido promovida por organizações e indivíduos que, muitas vezes, não obedecem princípios democráticos”.

2 – “Temos testemunhado uma guerra contra a família tanto nacional quanto internacional. Nesta década, na Conferências das Nações Unidas, têm sido vistas tentativas para “desconstruir” a família, de forma que o sentido de “casamento”, “família” e “maternidade” é agora contestado. Tem sido estabelecida uma falsa posição entre os direitos dela e os de seus membros individuais. Sob o nome de liberdade, têm sido promovidos “direitos sexuais” ilegítimos e “direitos de reprodução”. Entretanto, estes direitos estão, de fato, principalmente, a serviço do controle populacional. São inspiradas em teorias científicas em descrédito, num feminismo ultrapassado e numa mal direcionada preocupação com o meio ambiente”.

João Paulo II disse que: “Hoje em dia, os inimigos de Deus, mais do que atacar frontalmente o Autor da criação, preferem defrontá-Lo em suas obras. Em torno à família se trava hoje o combate fundamental da dignidade do homem”. “Nos nossos dias, infelizmente, vários programas sustentados por meios muito poderosos parecem apostados na desagregação da família.” (Carta às Famílias, 5).

Por tudo isso é muito importante que todas as comunidades, movimentos, dioceses, paróquias, grupos de oração etc., se mobilizem, para reavivar os verdadeiros valores da família, antes que seja tarde demais.

4.      Conclusão

Quando falamos em catequista, logo nos vem à mente a figura daquela pessoa que, nas comunidades paroquiais ou nas escolas, se incumbem da missão de preparar nossas crianças para fazerem sua Primeira Comunhão, ou seja, para receberem o Sacramento da Eucaristia. Mas para nossa comissão de famílias, quando se trata de catequistas falamos de nós mesmos.

Queremos, entretanto, relembrar aqui, que todos somos chamados pelo Baptismo a sermos missionários onde quer que estejamos vivendo, ou seja, temos a missão de levar o Evangelho a todas as criaturas, conforme estabelecido por Jesus em seu anúncio da Boa Nova (Mc 16,15). O primeiro lugar onde devemos exercitar essa ordem de Jesus é no seio da própria família, revelando e ensinando aos filhos o conteúdo das Sagradas Escrituras, introduzindo-os às primeiras orações cristãs e preparando-os para as práticas da fé católica.

“A Igreja não se cansa de repetir que a família deve ser a igreja doméstica, pois é no seio da família que os pais são para os filhos, pela palavra e pelo exemplo… os primeiros mestres da fé” (LG 11; FC 21).

Possam valer-nos o exemplo de José e Maria que proporcionaram ao menino Jesus o conhecimento da lei judaica em seu conteúdo e práticas, a ponto de um dia, quando estava com apenas doze anos, o encontrarem discutindo e interpelando os doutores da lei no templo de Jerusalém (Lc 2,41-52).

Perguntas

·         O que fazemos para inculcar nos filhos a amar a Deus e respeitar as suas Leis ?

·         O que podemos fazer, nós, como membros da comissão de famílias nas nossas paróquias para ajudar outras famílias a tomar consciência das suas responsabilidade de primeiras catequistas para os filhos ?

·         Como são organizados os encontros com as famílias das nossas paróquias ? ou seja, o que fazemos para reunir as famílias e do que falamos ?

 

 

 

Setembro 2017

Cléophas Mudita Ilunga

 

OS DEVERES DA FAMÍLIA CRISTÃ

No plano de Deus criador e Redentor, a família descobre não só a sua identidade, o que é, mas também a sua missão, o que ela pode e deve fazer. As tarefas, que a família é chamada por Deus a desenvolver na história, brotam do seu próprio ser e representam o seu desenvolvimento dinâmico e existencial. Cada família descobre e encontra em si mesma o apela inextinguível, que ao mesmo tampo define a sua dignidade e a sal responsabilidade: família, torna-te aquilo que é !

Segundo o desígnio de Deus, a família tem a missão de se tornar cada vez mais aquilo que é, ou seja, comunidade de vida e de amor, numa busca que, como para cada realidade criada e redimida, encontrará a plenitude do Reino de Deus. E, numa perspectiva que atinge as próprias raízes da realidade, deve-se dizer que a essência e os deveres da família são, em última análise, definidos pelo amor

Em tal sentido, partindo do amor em permanente referencia a ele, o Sínodo pôs em evidencia quatro deveres gerais da família:

- aformação de uma comunidade de pessoas

- o serviço à vida

- a participação no desenvolvimento da sociedade

- a participação na vida e na missão da Igreja

 

I.                   A PARTICIPAÇÃO NA VIDA E NA MISSÃO DA IGREJA

 

Entre os deveres fundamentais da família cristã estabelece-se o dever eclesial: colocar-se a serviço da edificação do Reino de Deus na história, mediante a participação na vida e na missão da Igreja

Para melhor compreender os fundamentos, os conteúdos e as características de tal participação, ocorre aprofundar os vínculos múltiplos e profundos que ligam entre si a Igreja e a família crista., e constituem esta última como “uma Igreja em miniatura” (Ecclesia domestica), fazendo com que esta , a seu modo , seja imagem viva e representação histórica do próprio mistério da Igreja.

É antes de tudo a Igreja Mãe que gera, educa, edifica a família crista, operando em seu favor a missão de salvação que recebeu do Senhor. Com o anúncio da Palavra de Deus, a Igreja revela à família cristão a sua verdadeira identidade, o que ela é e deve ser segundo o desígnio do senhor; com a celebração dos sacramentos, a Igreja enriquece e corrobora a família cristã com a graça de Cristo em ordem à sua santificação para a glória do Pai; com a renovada proclamação do mandamento novo da caridade, a Igreja anima e guia a família crista a serviço do amor, a fim de que imite e reviva o mesmo amor de doação e sacrifício que o Senhor Jesus nutre pela humanidade inteira.

Por sua vez, a família crista está inserida a tal ponto no mistério da Igreja que se torna participante, a seu modo, da missão de salvação própria da Igreja: os cônjuges e os pais cristãos, em virtude do sacramento, têm assim, no seu estado de vida e na sua ordem, um dom próprio no Povo de Deus. Por isso, não só recebem o amor de cristo tornando-se comunidade salva, mas também são chamados a transmitir aos irmãos o mesmo amor de cristo, tornando-se comunidade salva, mas também soa chamados a transmitir aos irmãos o mesmo amor de cristo, tornando-se assim, comunidade salvadora. Deste modo, enquanto a família crista é fruto e sinal de fecundidade sobrenatural da Igreja, torna-se símbolo, testemunho, participação da maternidade de Igreja

Uma função eclesial própria e original

A família crista é chamada a tomar parte viva e responsável na missão da Igreja de modo próprio e original, colocando-se a serviço da Igreja e da sociedade no seu ser e agir, enquanto comunidade íntima de vida e de amor.

Se a família crista é comunidade, cujos vínculos são renovados por Cristo mediante a fé e os sacramentos a sua participação na missão da Igreja deve dar-se segundo uma modalidade comunitária: conjuntamente, portanto, os cônjuges enquanto casal, os pais e os filhos enquanto família, devem viver o se serviço â Igreja e ao mundo. Devem ser na fé um só coração e uma só alma, através do espirito apostólico comum que os anima e mediante a colaboração que os empenha nas obras de serviço â comunidade eclesial e civil.

A família crista, pois edifica o Reino de Deus na historia mediante aquelas mesmas realidades cotidianas que dizem respeito e contradistinguem a sua condição de vida: é, então no amor conjugal e familiar – vivido na sua extraordinária riqueza de valores e exigências de totalidade, unicidade, fidelidade e fecundidade – que se exprime e se realiza a participação da família crista na missão profética, sacerdotal e real de Jesus cristo e da sua Igreja: o amor e a vida constituem, portanto, o núcleo da missão salvífica da família cristã na Igreja e pela Igreja.

O concilia vaticano II diz_ cada família comunicará generosamente às outras aas próprias riquezas espirituais. Por isso, a família crista, nascida de um matrimónio que é imagem e participação da aliança de amor entre cristo e a Igreja, manifestará a todos a presença viva do Salvador no mundo e a autêntica natureza da Igreja, quer por meio do amor dos esposos, quer pela sua generosa fecundidade, unidade e fidelidade, quer pela amável cooperação de todos os seus membros

 

Exortação apostólica de Joao Paulo II, a missão da família crista no mundo de hoje
Após uma longa viagem para minhas férias e passeio, já estou de volta para o trabalho. este ano estou pensando escrever um artigo sobre a situação da RD. Congo, uma visão d'um cidadão fora do seu pais. as implicações politicas, sociais e religiosas

sexta-feira, 21 de outubro de 2016


FAMÍLIA NA GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA

 

Cléophas Mudita Ilunga*


 

RESUMO

O presente artigo trata da contribuição da família na gestão da escola. Com base  nos pressupostos teóricos consultados vimos que esta  contribuição é possível, porém, deve ter um fundamento legal. Este artigo é uma interpelação  e conscientização dos agentes da educação que devem unir as forças para suscitar a aprendizagem dos educandos. A reflexão surge da constatação do actual cenário que mostra que a família cada vez mais distancia-se da vida escolar dos filhos, situação que consideramos como uma demissão da sua parte, enquanto promotora da educação dos seus filhos. Achamos que, trabalhando em colaboração com a família, a escola poderá alcançar os seus objectivos.

Palavras-chave: família na gestão da escola, gestão democrática, processo de ensino e aprendizagem

 

INTRODUÇÃO

Sabemos que a contribuição da família na gestão da escola é uma necessidade para educação dos filhos. Mas, muitas vezes constatamos a dificuldade de a família participar na gestão da escola por motivos pessoais e profissionais ou por falta de interesse ou do espaço para tal participação. Acompanhar  o processo educativo dos filhos exige da família uma disponibilidade total e o desejo de trabalhar em colaboração com a escola para alcançar os objectivos educativos.

O presente artigo pretende apresentar os diferentes modelos da participação para perceber melhor o enquadramento teórico  da contribuição da família na gestão da escola e mostrar as áreas em que esta contribuição pode ser feita. Assim, para alcançar este objectivo, falaremos da função da família em risco, da contribuição de modelos explicativos, da democratização da escola e da contribuição da família na gestão da escola.

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* Mestrando no programa de Pós-Graduação em Educação/Administração e Gestão Escolar da Universidade Pedagógica – Maxixe

 

1.      Família: a sua função primária em risco

A família é o primeiro grupo que o indivíduo conhece logo que nasce, no qual começa a integrar-se na vida comunitária (ALFANE, 1996:17). Em outras palavras, a família é a primeira estrutura que o indivíduo conhece e onde recebe a primeira educação. Os membros que a constitui são ligados por laços que fazem com que todos permaneçam unidos e sejam dependentes uns aos outros. Assim, os laços familiares vão da família restrita até à família alargada. A família, portanto, funciona como o primeiro e mais importante agente socializador. Por isso, é o primeiro contexto no qual se desenvolvem padrões de socialização, em que a criança constrói o seu modelo de aprendizagem e relaciona com todo o conhecimento adquirido durante sua experiência de vida e que vai se reflectir na sua vida futura.

Esta família tem sido objecto da atenção prioritária na sociedade, dado que é a base da vida humana. Ela é a única natural entre todas as sociedades humanas, porque não foi inventada de forma científica nem imposta por qualquer acto administrativo, nem resultou de qualquer ideologia nem qualquer legado jurídico. Esta instituição, apesar da desconsideração a que é sujeita, permanece como a primeira e mais decisiva infra-estrutura moral de referência para a transmissão de valores, dos saberes e da cultura. Esta desconsideração não é apenas da parte das instituições escolares e outras instituições que conhecemos, mas também da parte das próprias famílias que tendem a demitir-se das suas responsabilidades encarregando a escola para desempenhar o seu papel. Desta forma, podemos dizer que a família está em risco de perder o seu papel educativo, dado que, está a demitir-se das suas funções fundamentais e da sua missão natural e deixar a outras instituições encarregarem-se da educação dos filhos. Esta demissão tem repercussões negativas no processo de ensino e aprendizagem em termos da dedicação nos estudos da parte dos educandos, do desempenho de professores e de resultados escolares, dado que é a família que pode ajudar à escola a descobrir as dificuldades dos educandos, a planificar juntos com a escola as actividades em prol da educação dos alunos, decidir sobre os aspectos relevantes da educação e perspectivar o futuro educativo dos mesmos. Há, portanto uma urgência da parte da família recuperar a sua função primária e associar-se à escola para que juntas levem a cabo a responsabilidade de educar os filhos.

2.      Relação família-escola: contribuição de modelos explicativos

A questão da relação família-escola faz parte das grandes discussões no campo educacional. De forma geral, muitos pesquisadores mostram a possibilidade de interacção entre estes dois agentes de modo a alcançar os objectivos educativos. Entre os diversos modelos elaborados neste âmbito, três contribuíram de forma eficaz para a compreensão da relação entre família e escola.

O modelo teórico “esferas sobrepostas” elaborado por Epstein, explica como é que as duas instituições devem conjugar para potencializar o processo de ensino e aprendizagem. Esse modelo privilegia a cooperação e a complementaridade entre a escola e a família, e encoraja a comunicação e colaboração entre estas duas instituições (EPSTEIN apud BHERING & NEZ, 2002). Trata-se de um modelo apresentado em forma de um diagrama, que retrata a relação escola-família, englobando todos esses pontos, e, ainda, acrescenta a contribuição de cada parte desta relação. As "esferas sobrepostas" representam a família e a escola atuando em favor da criança.

O Modelo das “Pirâmides invertidas” proposto por Hornby, consiste em duas pirâmides: uma, representando a hierarquia das necessidades dos pais, e outra, a hierarquia de suas habilidades e possíveis contribuições. Ambas as pirâmides demonstram os diferentes níveis das necessidades e habilidades dos pais (HORNBY APUD BHERING & NEZ, 2002: 3). Este  modelo mostra que enquanto todos os pais têm algumas necessidades e habilidades que podem ser utilizadas, outros podem se envolver em actividades que demandam mais tempo e mais aptidão da parte dos profissionais. No pensamento destes autores ressalta a ideia de que existem muitos pais que se preocupam com a vida escolar dos filhos e que têm também possibilidades de ajudar a escola, se colocarem as suas habilidades ao serviço da mesma. Com efeito, os pais são uma riqueza para a escola. Com as suas aptidões, eles podem ajudar em diferentes sectores ou áreas de gestão da escola sem que a escola precise ainda uma outra ajuda externa. Esta participação na gestão da escola revela-se necessário e importante porque as potencialidades que elas têm, unidas às da escola podem ser uma força para que ocorre bem o processo educativo. 

O “modelo de transporte”, elaborado por Bhering, põe em relevo três elementos (comunicação, envolvimento e ajuda) a partir dos quais se cria um sistema de transportes, onde ilustrara metaforicamente, através de ilhas e navios, a dinâmica de trocas e negociações entre pais e escola. A comunicação dentro deste sistema é visto como um "instrumento" que viabiliza a relação escola-família, agindo como um facilitador e promotor desta relação (BHERING e BLATCHFORD, 2002:4). Neste modelo o autor mostra que, entre escola e família deve haver um sistema de comunicação que viabilize a sua relação. Só com isso é que a educação pode ser possível. Assim, a família deveria contribuir com as suas potencialidades (ideia, propostas, etc.) à vida da escola, para que em conjunto, consigam materializar os objectivos que são comuns. Em suma, os três modelos contribuíram muito na compreensão da relação família-escola mostrando como é que estas duas instituições devem colaborar, e,  sublinhando que ambas as partes têm possibilidade de dar o seu apoio e ajuda, tendo em conta as habilidades ou potencialidades que cada uma tem.

3.      A democratização da escola: um passo para a eficácia do processo de ensino aprendizagem

No passado, a participação da família na gestão da escola não era uma preocupação, dado que foi concebida a ideia de que o trabalho da educação era para família e a da instrução para a escola. Assim, quando a criança ia à escola, a família ficava tranquila, distanciando-se das suas responsabilidades. Mas, hoje em dia, com as pesquisas feitas, viu-se que a participação da família na educação escolar dos filhos é muito importante para o aluno, a escola e a própria família. Como a família já está ligada à educação dos filhos, a escola deve ter uma abertura na sua maneira de trabalhar, ou seja, deve envolver a família na gestão. Esta é a forma democrática para gerir a escola. Assim, a gestão democrática pode ser considerada como meio pelo qual todos os segmentos que compõem o processo educativo participam da definição dos rumos que a escola deve imprimir à educação de maneira a efectivar essas decisões num processo contínuo de avaliação de suas acções (SILVA, 2007: 34). A característica principal da gestão democrática é, segundo o autor, a participação de toda a comunidade educativa na definição dos objectivos educativos onde se acha plasmada a política para a educação dos alunos. Neste sentido, a gestão escolar democrática, é uma maneira de gerir a escola de forma aberta, participativa e transparente, ou seja, é aquela forma que promove o envolvimento de todos para o bem de todos. Nesta forma de gestão não existem sujeitos activos e passivos. Todos estão no mesmo patamar quanto à sua participação.

Democratizar a escola é descentralizar o poder tradicional da escola e conceder-lhe uma autonomia. Autonomia compreendida como faculdade das pessoas de autogovernar-se, de decidir sobre o próprio destino (MARTINS, 2002:97). A autonomia é a liberdade ou independência de realizar certos actos de forma livre e sem uma pressão externa. A escola, precisa de uma  autonomia para decidir sobre o seu destino, isto é, ter a liberdade de elaborar o seu projecto educativo, o seu regulamento interno, elaborar o seu plano de actividade, e planificar as actividades, etc. Para que isso aconteça, a escola deve ser independente de outros poderes para ter a verdadeira autonomia de decidir. A autonomia escolar, portanto, é uma forma da emancipação escolar. No passado, a escola não tinha nenhuma autonomia, porque não havia liberdade de contextualizar o ensino no sentido de escolher os conteúdos, métodos ou procedimentos. A escola dependia daquilo que tinha sido elaborado a nível central, e, neste caso, não havia espaço para as famílias participar na elaboração dos projectos educativos. Mas, hoje em dia, a participação da família é incontornável para falar da autonomia escolar.

Gerir uma escola pública de forma democrática e ter uma autonomia na gestão, precisa duma certa cobertura da parte do governo. Isto é, o governo deve explicitar através da lei a concessão desta autonomia, especificando os deveres e direitos, assim como, os limites. Só desta forma que se pode falar da gestão democrática da escola. Esta forma de gestão considera a autonomia como descentralização do poder de decisão e unificação de esforço para potencializar o processo educativo. Assim, podemos considerar que “a descentralização é uma tomada de decisão compartilhada” (LUCK, 2006: 99). Nesta perspectiva, descentralizar é conceder o mesmo poder de decisão a outros membros, ou seja, trabalhar em conjunto considerando que todos têm os mesmos direitos na tomada de decisões.

No âmbito da gestão democrática da escola existe um grande passo em termos da lei que concede à família o direito e dever de educar os seus filhos, e defendendo a cooperação ou colaboração entre o Estado e a família no que concerne à educação (Art 120, alínea 2 e 3 da Constituição da República). Aqui, a lei reconhece que é necessário que a família e o Estado trabalham juntos neste campo educativo. A escola, neste caso, representa o Estado. Assim, a gestão que admite os esforços de  todos os membros (escola e família) enquadra-se na gestão democrática. Ao promover a gestão democrática da escola, de forma legal, a escola passa a ter a autonomia de estabelecer alianças com outras  instituições que, no princípio, não  tinham esta possibilidade. Neste âmbito, a Lei nº 6/92, de 6 de Maio, vem reforçar o que está estipulado no Art 120 da constituição concernente à presença da família na educação dos filhos, preconizando a participação de outras entidades, incluindo comunitárias, cooperativas, empresariais e privadas na gestão do processo educativo e incentivando uma maior ligação entre a comunidade e a escola. É neste âmbito que surgiu a necessidade de abertura da escola às comunidades, e é nestas circunstâncias que os conselhos de escola nasceram através do Diploma Ministerial nº 54/2003, de 28 de Maio, que, no contexto da descentralização administrativa, procura criar maior flexibilidade nos processos de tomada de decisão através duma gestão participativa.

4.      Contribuição da família na gestão da escola

A família pode contribuir na gestão da escola de várias formas e em diversas áreas.   Pode participar na selecção de materiais curriculares, na apresentação de propostas de temas a explorar, etc. (LIMA, 2002: 150); pode ajudar a transmitir informação sobre o comportamento do aluno, dar a conhecer as suas ideias sobre a educação do aluno e a sua relação com planos futuros de aprendizagem, organizar visitas familiares de estudo com um interesse curricular, etc. (BRENNAM apud PACHECO, 2002: 98). A família  pode também ser associada a trabalhar nos assuntos como

a progressão/retenção dos alunos, as regras de disciplina a vigorar na escola, o cumprimento dos programas por parte dos professores, o regulamento de faltas, a organização interna da escola (por exemplo, a organização do currículo, a composição das turmas, o calendário escolar, as actividades de complemento curricular), a nomeação, controlo e avaliação do pessoal docente,  na avaliação de desempenho e na progressão de carreira (Robeiro apud Lima, 2002: 150).

Na verdade, a família pode trabalhar nas diferentes áreas da gestão da escola. Porém, na nossa realidade, existem áreas onde a família não tem acesso ou direito de intervenção, uma vez que não está estipulado na lei nem no regulamento que rege as escolas; outrossim, há áreas reservadas aos órgãos superiores, por exemplo, a nomeação de professores, a avaliação de desempenho e a progressão de carreira, entre outros. Portanto, a contribuição da família na gestão depende do tipo de escola. Quando se trata duma escola pública onde as directrizes são bem definidas e tudo está legalizado, esta proposta não vai funcionar. Mas, se a escola for comunitária, onde a família tem todo poder de gestão, a proposta é aplicável. Neste sentido, a intervenção da família pode ser efectiva onde as condições permitirem. Assim, quando a lei não estipula os modos e as formas de contribuição da família, há também dificuldade de a família contribuir de forma efectiva. No entanto, existem áreas em que a lei ou o regulamento da escola permite a contribuição da família. O Regulamento Geral do Ensino Básico (2008) mostra que existem mecanismos que podem garantir e concretizar a participação da família na gestão da escola a través a sua representação nos conselhos da escola e nas associações de pais e encarregados da educação. Nestes conselhos ou associações, a família pode contribuir com ideias e propostas para a elaboração e implementação do Projecto Educativo e em outros assuntos de âmbito escolar. O Regulamento sublinha a participação da família no conselho da escola e da turma, porém, não faz nenhuma menção sobre a participação da família no conselho pedagógico. A gestão democrática exige que a família seja representada em todos os conselhos para ter acesso a todas as informações sobre o modo de educar seus filhos e para poder acompanhar os assuntos que lá se trata e ajudar em ideias ou opinião. A sua falta nos órgãos de gestão leva-nos a confirmar que a contribuição da família na gestão da escola apresenta certos limites na sua actuação, ou seja, a sua contribuição não é total. A contribuição da família, pelo contrário, não pode ser limitada para certas áreas. A família  deve ser representada em todos os órgãos da gestão da escola, dado que é a primeira responsável da educação dos seus filhos.

Hoje, o envolvimento da família na escola é essencial para a educação do aluno. É através da integração família-escola e do trabalho em conjunto que se pode promover uma educação de qualidade e o sucesso do processo de ensino e aprendizagem. A gestão democrática da escola exige a colaboração entre os actores  e a partilha de responsabilidades para o bom funcionamento da organização escolar. As responsabilidades são consideradas aqui como meio que incentiva os membros da comunidade escolar a contribuírem de forma eficiente na gestão desta organização. Assim, no intuito de favorecer o bom funcionamento da escola e dar a oportunidade a todos os membros da comunidade educativa participar na gestão, as tarefas e funções devem ser partilhadas. Se a prática democrática deve envolver a instituição escolar por inteiro, é certo que a organização da escola deve ser de modo a favorecer tal prática democrática, possibilitando a participação de todos na tomada de decisão (PARO, 2010:68). Aliás, a escola deve organizar-se de modo a envolver toda a comunidade escolar no exercício das responsabilidades e na tomada de decisões. Só desta forma é que a prática democrática pode ser enraizada na instituição escolar. Este modo de proceder tem implicações positivas no sentido de, uma vez tomada uma decisão em conjunto, a possibilidade de a decisão dar certo é maior, dado que todos são corresponsabilizados em partilhar as consequências (positiva ou negativa) que podem resultar. Para isso, necessita  que a escola faça uma análise sobre o contexto familiar em que está inserida, ter informações sobre as necessidades da comunidade, conhecer as dificuldades e procurar a conviver com a família de modo a reflectir juntos sobre as prioridades dos educandos. A escola precisa da família para educar os filhos. Sem ela, a aprendizagem dos filhos fica comprometida. Assim, é necessário que a escola pense sobre a sua relação com a família e a possibilidade de lui atribuir tarefas e/ou responsabilidades para que se sente envolvida na educação dos seus filhos. Diante da colaboração das famílias no processo educativo dos seus filhos, nota-se que os alunos aprendem mais, os professores sentem-se mais realizados e os pais sentem-se melhor com os seus filhos e consigo mesmos (EBERSOLE apud LEMMER, 2006:141). Deste modo, a presença da família é um incentivo psicológica nas crianças. O efeito de ver a família na escola motiva as crianças a trabalhar ainda mais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao termo deste artigo, concluímos que a contribuição da família na gestão da escola implica dar espaço à família a expor suas opiniões e ideias nas diversas áreas  da gestão escolar, sobretudo da possibilidade de acções em conjunto nos conselhos da escola e associação de pais e encarregados da educação. Deste modo, a escola deve ser um espaço aberto à família e onde todos os agentes educativos devem  trabalhar juntos para a construção dum projecto em comum, que é a educação dos educandos. A escola e a família, portanto, são dois ambientes fundamentais que garantem a cultura, a educação e os valores para a vida futura da criança.

 

BIBLIOGRAFIA

ALFANE, Rufino. Educação cívica na sociedade tradicional, Maputo, MINAE, 1996

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SILVA, Luiz Inácio Lula da. Gestão democrática nos sistemas e na escola, Brasília, UNB, 2007

Legislação

Diploma Ministerial nº 54/2003 de 28 de Maio

Lei nº 4/83 de 23 de Maio

Lei nº 6/92 de 6 de Maio

A GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA


A FAMÍLIA NA GESTÃO DEMOCRÁTICA DA ESCOLA

 

Cléophas Mudita Ilunga*


 

RESUMO

O presente artigo trata da contribuição da família na gestão da escola. Com base  nos pressupostos teóricos consultados vimos que esta  contribuição é possível, porém, deve ter um fundamento legal. Este artigo é uma interpelação  e conscientização dos agentes da educação que devem unir as forças para suscitar a aprendizagem dos educandos. A reflexão surge da constatação do actual cenário que mostra que a família cada vez mais distancia-se da vida escolar dos filhos, situação que consideramos como uma demissão da sua parte, enquanto promotora da educação dos seus filhos. Achamos que, trabalhando em colaboração com a família, a escola poderá alcançar os seus objectivos.

Palavras-chave: família na gestão da escola, gestão democrática, processo de ensino e aprendizagem

 

INTRODUÇÃO

Sabemos que a contribuição da família na gestão da escola é uma necessidade para educação dos filhos. Mas, muitas vezes constatamos a dificuldade de a família participar na gestão da escola por motivos pessoais e profissionais ou por falta de interesse ou do espaço para tal participação. Acompanhar  o processo educativo dos filhos exige da família uma disponibilidade total e o desejo de trabalhar em colaboração com a escola para alcançar os objectivos educativos.

O presente artigo pretende apresentar os diferentes modelos da participação para perceber melhor o enquadramento teórico  da contribuição da família na gestão da escola e mostrar as áreas em que esta contribuição pode ser feita. Assim, para alcançar este objectivo, falaremos da função da família em risco, da contribuição de modelos explicativos, da democratização da escola e da contribuição da família na gestão da escola.

______________________

* Mestrando no programa de Pós-Graduação em Educação/Administração e Gestão Escolar da Universidade Pedagógica – Maxixe

 

1.      Família: a sua função primária em risco

A família é o primeiro grupo que o indivíduo conhece logo que nasce, no qual começa a integrar-se na vida comunitária (ALFANE, 1996:17). Em outras palavras, a família é a primeira estrutura que o indivíduo conhece e onde recebe a primeira educação. Os membros que a constitui são ligados por laços que fazem com que todos permaneçam unidos e sejam dependentes uns aos outros. Assim, os laços familiares vão da família restrita até à família alargada. A família, portanto, funciona como o primeiro e mais importante agente socializador. Por isso, é o primeiro contexto no qual se desenvolvem padrões de socialização, em que a criança constrói o seu modelo de aprendizagem e relaciona com todo o conhecimento adquirido durante sua experiência de vida e que vai se reflectir na sua vida futura.

Esta família tem sido objecto da atenção prioritária na sociedade, dado que é a base da vida humana. Ela é a única natural entre todas as sociedades humanas, porque não foi inventada de forma científica nem imposta por qualquer acto administrativo, nem resultou de qualquer ideologia nem qualquer legado jurídico. Esta instituição, apesar da desconsideração a que é sujeita, permanece como a primeira e mais decisiva infra-estrutura moral de referência para a transmissão de valores, dos saberes e da cultura. Esta desconsideração não é apenas da parte das instituições escolares e outras instituições que conhecemos, mas também da parte das próprias famílias que tendem a demitir-se das suas responsabilidades encarregando a escola para desempenhar o seu papel. Desta forma, podemos dizer que a família está em risco de perder o seu papel educativo, dado que, está a demitir-se das suas funções fundamentais e da sua missão natural e deixar a outras instituições encarregarem-se da educação dos filhos. Esta demissão tem repercussões negativas no processo de ensino e aprendizagem em termos da dedicação nos estudos da parte dos educandos, do desempenho de professores e de resultados escolares, dado que é a família que pode ajudar à escola a descobrir as dificuldades dos educandos, a planificar juntos com a escola as actividades em prol da educação dos alunos, decidir sobre os aspectos relevantes da educação e perspectivar o futuro educativo dos mesmos. Há, portanto uma urgência da parte da família recuperar a sua função primária e associar-se à escola para que juntas levem a cabo a responsabilidade de educar os filhos.

2.      Relação família-escola: contribuição de modelos explicativos

A questão da relação família-escola faz parte das grandes discussões no campo educacional. De forma geral, muitos pesquisadores mostram a possibilidade de interacção entre estes dois agentes de modo a alcançar os objectivos educativos. Entre os diversos modelos elaborados neste âmbito, três contribuíram de forma eficaz para a compreensão da relação entre família e escola.

O modelo teórico “esferas sobrepostas” elaborado por Epstein, explica como é que as duas instituições devem conjugar para potencializar o processo de ensino e aprendizagem. Esse modelo privilegia a cooperação e a complementaridade entre a escola e a família, e encoraja a comunicação e colaboração entre estas duas instituições (EPSTEIN apud BHERING & NEZ, 2002). Trata-se de um modelo apresentado em forma de um diagrama, que retrata a relação escola-família, englobando todos esses pontos, e, ainda, acrescenta a contribuição de cada parte desta relação. As "esferas sobrepostas" representam a família e a escola atuando em favor da criança.

O Modelo das “Pirâmides invertidas” proposto por Hornby, consiste em duas pirâmides: uma, representando a hierarquia das necessidades dos pais, e outra, a hierarquia de suas habilidades e possíveis contribuições. Ambas as pirâmides demonstram os diferentes níveis das necessidades e habilidades dos pais (HORNBY APUD BHERING & NEZ, 2002: 3). Este  modelo mostra que enquanto todos os pais têm algumas necessidades e habilidades que podem ser utilizadas, outros podem se envolver em actividades que demandam mais tempo e mais aptidão da parte dos profissionais. No pensamento destes autores ressalta a ideia de que existem muitos pais que se preocupam com a vida escolar dos filhos e que têm também possibilidades de ajudar a escola, se colocarem as suas habilidades ao serviço da mesma. Com efeito, os pais são uma riqueza para a escola. Com as suas aptidões, eles podem ajudar em diferentes sectores ou áreas de gestão da escola sem que a escola precise ainda uma outra ajuda externa. Esta participação na gestão da escola revela-se necessário e importante porque as potencialidades que elas têm, unidas às da escola podem ser uma força para que ocorre bem o processo educativo. 

O “modelo de transporte”, elaborado por Bhering, põe em relevo três elementos (comunicação, envolvimento e ajuda) a partir dos quais se cria um sistema de transportes, onde ilustrara metaforicamente, através de ilhas e navios, a dinâmica de trocas e negociações entre pais e escola. A comunicação dentro deste sistema é visto como um "instrumento" que viabiliza a relação escola-família, agindo como um facilitador e promotor desta relação (BHERING e BLATCHFORD, 2002:4). Neste modelo o autor mostra que, entre escola e família deve haver um sistema de comunicação que viabilize a sua relação. Só com isso é que a educação pode ser possível. Assim, a família deveria contribuir com as suas potencialidades (ideia, propostas, etc.) à vida da escola, para que em conjunto, consigam materializar os objectivos que são comuns. Em suma, os três modelos contribuíram muito na compreensão da relação família-escola mostrando como é que estas duas instituições devem colaborar, e,  sublinhando que ambas as partes têm possibilidade de dar o seu apoio e ajuda, tendo em conta as habilidades ou potencialidades que cada uma tem.

3.      A democratização da escola: um passo para a eficácia do processo de ensino aprendizagem

No passado, a participação da família na gestão da escola não era uma preocupação, dado que foi concebida a ideia de que o trabalho da educação era para família e a da instrução para a escola. Assim, quando a criança ia à escola, a família ficava tranquila, distanciando-se das suas responsabilidades. Mas, hoje em dia, com as pesquisas feitas, viu-se que a participação da família na educação escolar dos filhos é muito importante para o aluno, a escola e a própria família. Como a família já está ligada à educação dos filhos, a escola deve ter uma abertura na sua maneira de trabalhar, ou seja, deve envolver a família na gestão. Esta é a forma democrática para gerir a escola. Assim, a gestão democrática pode ser considerada como meio pelo qual todos os segmentos que compõem o processo educativo participam da definição dos rumos que a escola deve imprimir à educação de maneira a efectivar essas decisões num processo contínuo de avaliação de suas acções (SILVA, 2007: 34). A característica principal da gestão democrática é, segundo o autor, a participação de toda a comunidade educativa na definição dos objectivos educativos onde se acha plasmada a política para a educação dos alunos. Neste sentido, a gestão escolar democrática, é uma maneira de gerir a escola de forma aberta, participativa e transparente, ou seja, é aquela forma que promove o envolvimento de todos para o bem de todos. Nesta forma de gestão não existem sujeitos activos e passivos. Todos estão no mesmo patamar quanto à sua participação.

Democratizar a escola é descentralizar o poder tradicional da escola e conceder-lhe uma autonomia. Autonomia compreendida como faculdade das pessoas de autogovernar-se, de decidir sobre o próprio destino (MARTINS, 2002:97). A autonomia é a liberdade ou independência de realizar certos actos de forma livre e sem uma pressão externa. A escola, precisa de uma  autonomia para decidir sobre o seu destino, isto é, ter a liberdade de elaborar o seu projecto educativo, o seu regulamento interno, elaborar o seu plano de actividade, e planificar as actividades, etc. Para que isso aconteça, a escola deve ser independente de outros poderes para ter a verdadeira autonomia de decidir. A autonomia escolar, portanto, é uma forma da emancipação escolar. No passado, a escola não tinha nenhuma autonomia, porque não havia liberdade de contextualizar o ensino no sentido de escolher os conteúdos, métodos ou procedimentos. A escola dependia daquilo que tinha sido elaborado a nível central, e, neste caso, não havia espaço para as famílias participar na elaboração dos projectos educativos. Mas, hoje em dia, a participação da família é incontornável para falar da autonomia escolar.

Gerir uma escola pública de forma democrática e ter uma autonomia na gestão, precisa duma certa cobertura da parte do governo. Isto é, o governo deve explicitar através da lei a concessão desta autonomia, especificando os deveres e direitos, assim como, os limites. Só desta forma que se pode falar da gestão democrática da escola. Esta forma de gestão considera a autonomia como descentralização do poder de decisão e unificação de esforço para potencializar o processo educativo. Assim, podemos considerar que “a descentralização é uma tomada de decisão compartilhada” (LUCK, 2006: 99). Nesta perspectiva, descentralizar é conceder o mesmo poder de decisão a outros membros, ou seja, trabalhar em conjunto considerando que todos têm os mesmos direitos na tomada de decisões.

No âmbito da gestão democrática da escola existe um grande passo em termos da lei que concede à família o direito e dever de educar os seus filhos, e defendendo a cooperação ou colaboração entre o Estado e a família no que concerne à educação (Art 120, alínea 2 e 3 da Constituição da República). Aqui, a lei reconhece que é necessário que a família e o Estado trabalham juntos neste campo educativo. A escola, neste caso, representa o Estado. Assim, a gestão que admite os esforços de  todos os membros (escola e família) enquadra-se na gestão democrática. Ao promover a gestão democrática da escola, de forma legal, a escola passa a ter a autonomia de estabelecer alianças com outras  instituições que, no princípio, não  tinham esta possibilidade. Neste âmbito, a Lei nº 6/92, de 6 de Maio, vem reforçar o que está estipulado no Art 120 da constituição concernente à presença da família na educação dos filhos, preconizando a participação de outras entidades, incluindo comunitárias, cooperativas, empresariais e privadas na gestão do processo educativo e incentivando uma maior ligação entre a comunidade e a escola. É neste âmbito que surgiu a necessidade de abertura da escola às comunidades, e é nestas circunstâncias que os conselhos de escola nasceram através do Diploma Ministerial nº 54/2003, de 28 de Maio, que, no contexto da descentralização administrativa, procura criar maior flexibilidade nos processos de tomada de decisão através duma gestão participativa.

4.      Contribuição da família na gestão da escola

A família pode contribuir na gestão da escola de várias formas e em diversas áreas.   Pode participar na selecção de materiais curriculares, na apresentação de propostas de temas a explorar, etc. (LIMA, 2002: 150); pode ajudar a transmitir informação sobre o comportamento do aluno, dar a conhecer as suas ideias sobre a educação do aluno e a sua relação com planos futuros de aprendizagem, organizar visitas familiares de estudo com um interesse curricular, etc. (BRENNAM apud PACHECO, 2002: 98). A família  pode também ser associada a trabalhar nos assuntos como

a progressão/retenção dos alunos, as regras de disciplina a vigorar na escola, o cumprimento dos programas por parte dos professores, o regulamento de faltas, a organização interna da escola (por exemplo, a organização do currículo, a composição das turmas, o calendário escolar, as actividades de complemento curricular), a nomeação, controlo e avaliação do pessoal docente,  na avaliação de desempenho e na progressão de carreira (Robeiro apud Lima, 2002: 150).

Na verdade, a família pode trabalhar nas diferentes áreas da gestão da escola. Porém, na nossa realidade, existem áreas onde a família não tem acesso ou direito de intervenção, uma vez que não está estipulado na lei nem no regulamento que rege as escolas; outrossim, há áreas reservadas aos órgãos superiores, por exemplo, a nomeação de professores, a avaliação de desempenho e a progressão de carreira, entre outros. Portanto, a contribuição da família na gestão depende do tipo de escola. Quando se trata duma escola pública onde as directrizes são bem definidas e tudo está legalizado, esta proposta não vai funcionar. Mas, se a escola for comunitária, onde a família tem todo poder de gestão, a proposta é aplicável. Neste sentido, a intervenção da família pode ser efectiva onde as condições permitirem. Assim, quando a lei não estipula os modos e as formas de contribuição da família, há também dificuldade de a família contribuir de forma efectiva. No entanto, existem áreas em que a lei ou o regulamento da escola permite a contribuição da família. O Regulamento Geral do Ensino Básico (2008) mostra que existem mecanismos que podem garantir e concretizar a participação da família na gestão da escola a través a sua representação nos conselhos da escola e nas associações de pais e encarregados da educação. Nestes conselhos ou associações, a família pode contribuir com ideias e propostas para a elaboração e implementação do Projecto Educativo e em outros assuntos de âmbito escolar. O Regulamento sublinha a participação da família no conselho da escola e da turma, porém, não faz nenhuma menção sobre a participação da família no conselho pedagógico. A gestão democrática exige que a família seja representada em todos os conselhos para ter acesso a todas as informações sobre o modo de educar seus filhos e para poder acompanhar os assuntos que lá se trata e ajudar em ideias ou opinião. A sua falta nos órgãos de gestão leva-nos a confirmar que a contribuição da família na gestão da escola apresenta certos limites na sua actuação, ou seja, a sua contribuição não é total. A contribuição da família, pelo contrário, não pode ser limitada para certas áreas. A família  deve ser representada em todos os órgãos da gestão da escola, dado que é a primeira responsável da educação dos seus filhos.

Hoje, o envolvimento da família na escola é essencial para a educação do aluno. É através da integração família-escola e do trabalho em conjunto que se pode promover uma educação de qualidade e o sucesso do processo de ensino e aprendizagem. A gestão democrática da escola exige a colaboração entre os actores  e a partilha de responsabilidades para o bom funcionamento da organização escolar. As responsabilidades são consideradas aqui como meio que incentiva os membros da comunidade escolar a contribuírem de forma eficiente na gestão desta organização. Assim, no intuito de favorecer o bom funcionamento da escola e dar a oportunidade a todos os membros da comunidade educativa participar na gestão, as tarefas e funções devem ser partilhadas. Se a prática democrática deve envolver a instituição escolar por inteiro, é certo que a organização da escola deve ser de modo a favorecer tal prática democrática, possibilitando a participação de todos na tomada de decisão (PARO, 2010:68). Aliás, a escola deve organizar-se de modo a envolver toda a comunidade escolar no exercício das responsabilidades e na tomada de decisões. Só desta forma é que a prática democrática pode ser enraizada na instituição escolar. Este modo de proceder tem implicações positivas no sentido de, uma vez tomada uma decisão em conjunto, a possibilidade de a decisão dar certo é maior, dado que todos são corresponsabilizados em partilhar as consequências (positiva ou negativa) que podem resultar. Para isso, necessita  que a escola faça uma análise sobre o contexto familiar em que está inserida, ter informações sobre as necessidades da comunidade, conhecer as dificuldades e procurar a conviver com a família de modo a reflectir juntos sobre as prioridades dos educandos. A escola precisa da família para educar os filhos. Sem ela, a aprendizagem dos filhos fica comprometida. Assim, é necessário que a escola pense sobre a sua relação com a família e a possibilidade de lui atribuir tarefas e/ou responsabilidades para que se sente envolvida na educação dos seus filhos. Diante da colaboração das famílias no processo educativo dos seus filhos, nota-se que os alunos aprendem mais, os professores sentem-se mais realizados e os pais sentem-se melhor com os seus filhos e consigo mesmos (EBERSOLE apud LEMMER, 2006:141). Deste modo, a presença da família é um incentivo psicológica nas crianças. O efeito de ver a família na escola motiva as crianças a trabalhar ainda mais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao termo deste artigo, concluímos que a contribuição da família na gestão da escola implica dar espaço à família a expor suas opiniões e ideias nas diversas áreas  da gestão escolar, sobretudo da possibilidade de acções em conjunto nos conselhos da escola e associação de pais e encarregados da educação. Deste modo, a escola deve ser um espaço aberto à família e onde todos os agentes educativos devem  trabalhar juntos para a construção dum projecto em comum, que é a educação dos educandos. A escola e a família, portanto, são dois ambientes fundamentais que garantem a cultura, a educação e os valores para a vida futura da criança.

 

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